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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O mundo é a nossa casa




Eu gostava tanto, tanto, tanto deste livro quando era pequena. Procurei-o em casa e na internet, e por fim encontrei-o, porque alguém (obrigada, Guimarães) teve a belíssima ideia de o reeditar. É que é uma das mais intensas recordações da minha infância. E agora recupero-o para a M, com grande satisfação. Pensando bem, acho que vou presentear vários meninos e meninas com um exemplar, neste Natal. Acham que ainda é cedo para pensar nisso?

Descobri agora que o livro, mal saiu da tipografia, foi proibido (e todos os exemplares apreendidos foram queimados) em 1973, por ordem do Governo de Marcelo Caetano, que considerou a obra subversiva. Parece que o livro que andava lá por casa foi um dos poucos que sobreviveram à censura. Esta foi uma das primeiras obras sobre ecologia escritas em Portugal, e para crianças. Fala do risco do mundo, a "casa grande" que é de todos nós, se tornar inabitável; aborda as injustiças e as divisões entre a família dos homens, e os seus tristes resultados. E propõe uma solução, afinal a única possível: mudar a forma de ver este pequeno e belo planeta azul, e a forma de viver nele e entre os outros seres vivos.

Hoje li no jornal, logo de manhã, que embora Portugal tenha reduzido o peso ambiental que representa para o mundo entre 2005 e 2007, ainda seriam necessários 2,5 planetas para suportar o modo de vida dos portugueses. A obrigação de ensinar às nossas crianças uma nova forma de relação entre o homem e a natureza continua a ser tão actual como há 30 anos. Tal como este livrinho.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Era uma vez...


Caras mamãs, hoje é dia de leitura em família aqui nas Roupinhas. E que dia melhor para pegar num livro do que num tranquilo feriado de outono? Tragam os meninos, e vamos à aventura. Ler um bom livro é seguramente uma das melhores formas de aprender História, e a história do dia é, evidentemente, a do término da monarquia em Portugal, e da Implantação da República, que hoje comemora 100 anos.

Tudo isto porque há alguns dias perguntei à minha filha, que está na segunda classe, se na escola tinha recebido alguma explicação sobre o 5 de Outubro. De acordo com ela, tudo o que a professora disse foi que hoje era... um feriado. E eu acredito que mesmo os meninos pequenos podem e devem saber mais. Até porque nunca mais viverão um centenário da República. Então, deitemos nós, pais e mães, mãos à obra. Por dever e por prazer.

Nesta estante virtual (obrigada, Instituto Camões) podem ler muitos livros sobre reis e rainhas de Portugal escritos para crianças. Hoje vamos retirar da prateleira o último livro da colecção Era uma vez um rei, que se chama D. Carlos I, o Diplomata, e lê-lo juntos. Simples, acessível, ilustrado, e todinho disponível aqui, em nossa casa.

E depois? Bom, não encontrei nenhuma explicação mais concisa e simpática do que esta, oferecida pela Visão Júnior. Para os pequenos cidadãos lá de casa. E se quiserem aprofundar o tema, há mais livros disponíveis, como podem ver pelas fotos.

Bom feriado!

domingo, 18 de julho de 2010

A ler: Os Tontos



O primeiro livro que li do britânico Roald Dahl não foi nenhuma das suas obras mais conhecidas, como Charlie e a Fábrica de Chocolate, James e o Pêssego Gigante, As Bruxas ou Matilda, todos adaptados ao cinema com grande sucesso (aqui, aqui, aqui e aqui). Comecei por ler Os Tontos na sua versão original, The Twits, e lembro-me de rir com gosto. Quando andava à procura de um livro para iniciar a M. na leitura por prazer (por oposição às inefáveis fichas de português da primária), acabei por encontrar neste encantador e muito premiado escritor infantil o autor ideal: inteligente, divertido, sem “pieguices”, com a dose certa de ironia e maldade que uma criança aprecia. Alguns livros são demasiado longos, mas outros são do tamanho certo, com mini-capítulos que não cansam e nos deixam suspensos do que se vai seguir. Começámos por ler A Girafa, o Pelicano e Eu, que foi despachado num piscar de olhos, e agora deliciamo-nos com estes dois velhotes feios, maus e malcheirosos, que se dedicam a pregar partidas um ao outro e a dar bengaladas em animais e criancinhas desprevenidas. Não é leitura da catequese, é mesmo para rir muito. As ilustrações ajudam!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A ler: A Maior Flor do Mundo



Estamos a reler A Maior Flor do Mundo, de José Saramago, ilustrado por João Caetano e editado pela Caminho. A M. já o conhecia, mas não se lembrava. Não é um livro fácil para crianças, e ela tem sete anos.

Ou deveria antes dizer, VIVA! Não é um livro fácil para crianças! De facto, é um livro que contraria as mais recentes directrizes do Ministério da Educação, que se materializam na apresentação da “dificuldade como barreira insuperável para a aquisição de qualquer conhecimento”, e lêem «trauma» onde reside a expectativa e a vontade de saber”, impondo “aos alunos a facilidade como caminho para a obtenção do êxito escolar”. Estas citações são retiradas d’ O Ensino do Português, de Maria do Carmo Vieira, uma obra arrepiante sobre o estado do ensino da língua materna no nosso país, que qualquer pai quererá ler, e onde verá que os senhores que recusam para os meninos a leitura de obras como O Principezinho antes dos 14-15 anos...

Bom, passemos adiante. Bons livros para as crianças, já!

Mas não de qualquer forma, claro. A M. viu O Conto da Ilha Desconhecida muito bem ensaiado pela Barraca, e agora acompanhará a leitura da Flor com o filmezinho correspondente. É que, como eu já disse e o próprio autor avisou, o livro não é fácil. Ou seja, a narração pressupõe que somos todos inteligentes (miúdos e graúdos), e que temos vontade de ir mais longe. Logo nas primeiras páginas Saramago manda o pequeno leitor “ver no dicionário ou perguntar ao professor” sempre que aparecerem palavras difíceis – e elas vão aparecer.

Saramago afirma que não sabe escrever para crianças. Será talvez uma ironia; é que hoje em dia escrever para crianças é muito parecido com escrever para tolos. Mas a minha filha, que é tão tola como todas as outras crianças que conheço (ou seja, nadinha de todo), tem uma clara preferência por boa literatura: Sophia de Mello Breyner ou Roald Dahl, em vez do Clube dos Gatinhos (e aqui estou a inventar), que só ganha por ter uma capa mais colorida. Mas, como dizem os ingleses, não se deve julgar um livro pela sua capa.

Como os meninos pequenos, até terem um domínio razoável da leitura, devem ler com algum acompanhamento, o senhor Saramago não precisa de se preocupar. A história lê-se devagar e com entoação, usando o tal dicionário se for preciso, e sem esquecer a alegria e o humor, que são a melhor forma de ultrapassar obstáculos.

A história não vou contar, mas Saramago soube recordar nela o sabor da infância – e recordaria certamente a sua, na agora famosa Azinhaga do Ribatejo. Os nossos filhos são heróis como o do livro, todos os dias. Saem de casa e de perto dos pais para explorar o mundo, vivem descobertas pessoais e intransmissíveis, mesmo que sejam contadas, e regressam no fim do dia um pouco mais crescidos. E nesse dia ajudaram a mudar o mundo, com os seus gestos pequenos mas firmes. Esta é a idade do deslumbramento, e a altura certa para começar a ler livros assim.